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segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

a vida não é só o que se vê

Pra quem acha que o mundo do xarpi, é só um submundo, enganasse, pois estamos ganhando força e admiração, por pessoas que não entendem o que tá escrito na parede, mas entende o atidude de se fazer isso.....
Fico muito grato, em saber que o blog e os fotolog´s estão sendo acompanhado, por pessoas de fora da tinta, pais de pichadores, professores de faculdades, alunos de piscologia, ou qualquer área que estude o comportamento humano...
Um dia a gente vai olhar pra trás e poder dizer, eu fui um pichador, sem dispertar desconforto ou vergonha nas pessoas ao nosso redor, todos os gênios foram recriminados em suas épocas, quando suas idéias eram consideradas, futuristas e impossíveis, para as autoriades e cabeças pequenas daquele tempo.
Então membros dos fotolog´s,
mais cuidado com as coisas que são postadas, atenção na qualidade, estamos sendo observados. por pichadores e admiradores.
hoje o blog trás um trabalho universitário, exclusivamente sobre xarpi, é uma honra saber que o autor, é leitor diário das páginas de tinta, e que de cera forma ajudou a fazer esse belo trabalho.
Que na verdade é um projeto para um livro


Localismos Extremos: a vida não é só o que se vê

Gustavo Coelho
UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro


“Não sou formado / Mas sou informado”
(Leonel – O Rapper do “Charpi”)

Alguém consegue percorrer qualquer distância, por menor que seja, em uma megalópole como o Rio de Janeiro sem ser seduzido por qualquer atrativo visual? Vivemos em uma sociedade cujo globalismo talvez mais evidente, seja exatamente a hegemonia do olhar, do visual – categoria do sentido, que como todo agenciamento, alcança seu mais alto nível de poder no próprio momento em se concede natural, ou seja, intensifica ao máximo seu caráter ativo exatamente quando este é revestido de uma passividade em cujas víceras, algo simbolicamente violento circula.
Fica evidente aqui o papel central da linguagem publicitária, a qual cada vez mais troca o uso permitido do espaço público para constituir-se no próprio espaço público da metrópole. Enquanto isso, nós, corpos circulantes da cidade somos reduzidos, especialmente por jornalistas cooptados e pelas agências de propaganda, à percentualizações generalizantes, que evidenciam em números e dados o que Foucault (2007) denunciou como o desejo por corpos dóceis, ou seja, submetidos ao poder moral disciplinador, que hoje se liquidificou para muito além da instituição escola, ganhando espaço nos discursos oficiais dos “bons”, que sob a tutela do sonho civilizatório tem fé numa vida, que de fato só sustentará seus próprios privilégios.
De todo modo, como Foucault (2007) salientou, o desejo por tais corpos dóceis, evidentemente não resulta em corpos obedientes. De fato, o que é recalcado por tais aparentes “bondades”, encontrará na potência juvenil urbana, um espaço convidativo para sua necessidade de eclosão. Um indício de tal potência é o “Bonde do Charpi” (Galera da Pichação), ou seja, um localismo carioca de resistência estética-corporal-ativa. Meninos e meninas (Gente! Até meninas?! – se espantariam as/os machocratas) que saem para missões nas madrugadas colocando seus nomes e frases o mais alto, o mais mídia e o mais eterno possível. “Olha pro alto!” (foto)

A fim de discutir alguns pequenos aspectos desta galera, que de maneira nenhuma poderá ser reduzida a estas páginas, lançarei mão de três fotografias:


Se um destes jovens fosse comentar esta foto, poderia dizer:Cara esse paredão é mó mídia!”. Uma vez que fica de frente para duas das principais vias do Rio de Janeiro, a Avenida Brasil e a Perimetral. Desta forma, se valem dos mesmos valores da publicidade “bonita” para no interior deles deixarem um gosto de “corpos amargos”. Um amargo que de fato se transfigura também pela sua negação à cores atrativas, uma vez que a potência do “charpi” está evidenciada mais pelo corpo que escala a cidade, tanto na vertical quanto na horizontal. Da Pavuna ao Leblon, do muro à marquise e do subsolo ao 10º andar. Qual o tamanho do seu outdoor?
Nesta mesma rua, especialmente no final da década de 80, se consagra o graffitti. Arte que por primar pela composição e expandir seu leque de cores, acaba sendo mais facilmente cooptada por certa moral estética ou estética moralizadora, que rechaça a potência da pichação. De todo modo, a hibridização pós-moderna permite (ao mesmo tempo que é permitida) à estes jovens a livre circulação de identidades. Muitos deles trafegam confortavelmente entre o graffitti e o “charpi”, quase que como entre o dia e a noite, o visível e o invisível, o mundo e o submundo.
Falo do graffitti, uma vez que a próxima foto é de um. Porém, meu foco vai para a frase:


“A vida que Deus me deu não é a que meu pai escolheu”.

Enquanto Nietzsche em seu “O Anticristo” (2007) do século XIX ainda se amargurava pelo fato da humanidade, especialmente a cristã-ocidental, ter passado quase 2 mil anos sem criar um único Deus; na nossa pós-modernidade até Deus se hibridiza. Fica evidente que o Deus aqui enunciado não é o mesmo paternalista duramente criticado por Nietzsche na sua era moderna. Se aquele mesmo Deus moderno ainda vivesse, de maneira nenhuma daria a alguém, uma vida de “pichador” ou de “grafiteiro”. Se por acaso isso acontecesse, seria considerado um pecado a ser duramente “consertado”. Porém, hoje, com um Deus irremediavelmente plural à imagem e semelhança do homem, o Deus do filho não é mais o mesmo para o qual o pai reza toda noite.

Já a terceira foto, deixa evidente a sina publicitária em abocanhar, remodelar (“limpar”) e capitalizar sobre ações cuja potência emancipatória causa o famoso mal-estar social ou o gosto “amargo” anteriormente citado. De todo modo tais estratégias jamais conseguirão reduzir as táticas cotidianas (CERTEAU, 1994) destes agentes urbanos aos seus departamentos financeiros, educacionais e civilizatórios.
Em suma, a vida não é só aquilo que se vê, ou que se é induzido a ver pelo globalismo dos mercadores de sentidos (RONSINI, 2007). Há vida nos subsolos, nos submundos, nos localismos extremos. Onde ninguém quer passar, alguém cisma em atravessar. E não seria essa a vida que de fato ainda faz pulsar a metrópole?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano: 1. artes de fazer; tradução de Ephraim Ferreira Alves. – Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão; tradução de Raquel Ramalhete. 34. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007.

NIETZSCHE, Friedrich. O Anticristo: ensaio de crítica do cristianismo. São Paulo: Escala, 2007.

RONSINI, Veneza V. Mayora. Mercadores de sentido: consumo de mídia e identidades juvenis. Porto Alegre: Sulina, 2007.
[1] Bacharel em Comunicação Social (UERJ); Mestrando em Educação (ProPed – UERJ).

Agradecimento especial à todos que leram, e ganharam a noção e responsabilidade de estar fazendo parte de uma história.

Agradecer também aos que não leram, pois qualquer história é feita com personagens fortes e fracos, quem leu está do lado dos fortes, letitura fortalece a mente.

Parabéns Gustavo, o mundo do xarpi agradece


NUNO

8 comentários:

Anônimo disse...

Nunão.. duas coisas... procura no google "pichação monografia"... vc vai ver uma monografia show de bola sobre pichação... feita por um ex pichador do Grajaú...que não se identificou quanto à pichação.

A segunda coisa foi que vc esqueceu que tem professor de Biologia também observando os fotologs... um professor muito bom, super competente...rs

Abração!

Admirador da Arte - ISG

Anônimo disse...

http://www.sbsociologia.com.br/congresso_v02/papers/GT26%20Sociologia%20da%20Inf%C3%A2ncia%20e%20Juventude/Microsoft%20Word%20-%20Paper%20SBS%202007%5B1%5D.pdf

A DIsserteção de mestrado que falei...

Abração Nuno!

Admirador da Arte ISG

Anônimo disse...

o cara nao só falou bonito como falou com inteligencia, principalmente na hora que ele diz que os grandes artistas nunca foram aceitos logo no inicio e na parada da publicidade
exelente
parabens falou

Gustavo disse...

Fala Galera!
De fato vocês não tem idéia do quanto me deixa feliz ter meu texto publicado neste Blog.

Quando comecei a pesquisa, o primeiro que tive contato foi o GOYABOY, que imediatamente me falou sobre o Páginas de Tinta. Desde então, vivo por aqui, de fato todo dia angariando material para minha pesquisa.

Devo dizer, que ao ver meu texto no blog, fiquei arrepiado. Disse isso para a Dynha no MSN. Ela me perguntou o porquê. E eu disse: do mesmo jeito que vc se arrepia ao ver sua obra no muro.. me arrepio a ver meu texto, que é minha obra, no blog.

De todo modo, este é só o primeiro texto de uma longa pesquisa. Vamo que vamo juntos!

De pois temos que marcar em alguma destas reús para conhecer de fato a galera!

Valewwwww! Obrigadão pelo espaço a todos do Charpi!

Guga!

Dynha disse...

Tive a honra de ser uma das primeiras a ler esse texto !

Parabéns ao Gustavo que teve a coragem de abordar um tema ainda tão "delicado" !

Parabéns a todos nós do Xarpi que fazemos parte dessa história

E Parabéns pra você Nuno que ajuda á cada dia , na divulgação da nossa arte !


; Beijão

Anônimo disse...

Sem palavras ..

Nuno e todos que contribuem ou contribuirao com o fotolog ..

Parabéns, vcs estão ajudando cada vez mais o xarpi !!

nath*AT disse...

Gustavo é um gênio, li com calma cada linha escrita por ele. Agradeço de coração por ele ajudar os leigos a entender o nosso MUNDO.
MUNDO sim, e não submundo.
E você Nuno, parabéns mais uma vez por divulgar isso tudo.
Parabéns mesmo.

Tudo nosso.


Beijão.

Gustavo disse...

Fala Galera!
Estou aqui novamente para dizer, que quem quiser ou puder me adicionar no MSN, o endereço é gustavobateracoelho@hotmail.com

Em breve conversarei ainda mais com vocês, a fim de engrossar o caldo da pesquisa RS...

Valew galera pela força toda!

Vamo que vamo!

Guga!